O Legista
Tema: Gestão - Autoria: Luciano Pires
E se eu fosse um legista? Seria frustrante ter formação em medicina, para salvar vidas, e ter uma sensação de impotência, de desespero, de agonia pela incapacidade de ajudar meu "paciente".
Pois sabe que nos nossos negócios, acho que somos todos legistas? Passamos grande parte do tempo diante de situações irreversíveis, examinando do que morreu o mês, o processo, o negócio, o acordo, o resultado...
Passamos a vida registrando quanto foi a venda do mês, o lucro, as despesas, quanto comprou o fulano, qual a participação de mercado... tudo no passado...como um legista, procurando saber do que morreu o infeliz.
Por quê essa dificuldade em utilizar indicadores que reflitam a tendência dos negócios ANTES que o leite seja derramado? Essa incapacidade de encontrar indicadores que reflitam para onde vai - e não apenas de onde vem - nosso negócio?
Contar, medir, somar, subtrair, dividir ou multiplicar, é fácil. Mas tirar conclusões, pensar, elaborar cenários...definir os indicadores corretos, tirar o foco daquilo que é tangível, evidente e superficialmente correto... não é fácil.
Transformamos os números em verdades, manipuladas como se fossem absolutas, imaginando que as coisas são estáticas, esperando para ser medidas, comparadas e relacionadas...
Mas hoje, o que está estático? Como capturar em números a complexidade de nossas vidas? Números simplificam situações complexas e são considerados verdade absoluta.
As pessoas tornam-se tão bitoladas pelos números, que perdem a confiança em seus instintos. Ficam iludidas diante da sensação de autoridade e conhecimento. Tornam-se meros joguetes nas mãos dos hábeis manipuladores de números.
Números transformam-se na trincheira da incompetência, da burocracia, da insegurança, do imobilismo, da aversão à inovação, da manutenção da rotina.
Medir coisas, significa defini-las. Pensem no recente ataque às torres gêmeas de Nova Iorque. Pelos números, a tragédia resume-se a 4 mil mortos, algo que está muito longe de representar a verdadeira dimensão do ataque.
Mas "números não mentem jamais". Números são confiáveis. Palavras, não. Mergulhamos nas estatísticas e viramos donos da verdade:
- Esta sala tem 50 homens e 50 mulheres. Logo, estatisticamente, cada um tem um testículo...
Podemos contar consumidores indefinidamente. Mas jamais encontraremos dois consumidores exatamente iguais. Quanto mais nos apoiamos em números, mais a verdade escapa, porque cada pessoa, cada coisa, cada acontecimento é único e imensurável.
Disse Albert Einstein: "Nem tudo que pode ser contado, conta. Nem tudo que realmente conta, pode ser contado".
Sem saber medir a pobreza...medimos a riqueza. Sem saber medir a inteligência...medimos o Q.I.
Sem saber medir o sucesso...medimos o dinheiro. Sem saber medir competência...medimos processos. Sem saber medir satisfação...medimos rapidez da entrega. Sem saber medir qualidade...medimos problemas por milhão...
Cegos pelos números, saímos desesperadamente atrás de ISOs, QSs e outros programas da moda apoiados em números, que parecem ser a solução para nossos problemas. Mas não percebemos que esses programas apenas garantem, a quem produz porcaria, a capacidade de produzir porcaria com qualidade consistente e processo confiável.
Não bastasse a incompetência em estabelecer o que medir, ainda por cima somos legistas. Medimos o passado. Examinamos o que aconteceu, depois de acontecer.
Meu amigo, se você é um desses legistas, tome cuidado.
No mundo dos negócios, o próximo estágio é coveiro. Adivinhe quem vai ser o defunto?
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